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A Química Investigativa

 Olá Professores e futuros Professores! Vocês já pensaram que as aulas de Químicas não precisam ser entediantes e consideradas como "disciplina de decoreba" pelos alunos? Hoje em dia há metodologias de aprendizagem que o foco é no próprio aluno, e não no professor, como estávamos acostumados. São chamadas "Metodologias ativas", vocês já conhecem?




Uma das práticas pedagógicas das metodologias ativas é a Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP) ou Problem Based Learning (PBL). O objetivo dela é a capacitação do aluno para pesquisas, integrando teoria e prática. Na PBL a responsabilidade pela aprendizagem é do próprio aluno. Isso pode até parecer que não vai dar muito certo, mas quando há um estímulo e uma aplicação prática da teoria, o aluno fica muito mais motivado. Já existem várias pesquisas que ressaltam os bons resultados das metodologias ativas nas escolas.

Por enfatizar a investigação e a interação, a PBL já é muito usada em faculdades de medicina, onde um problema é apresentado aos alunos e, em grupo, usando a interdisciplinaridade, eles trabalham em busca de uma solução. É importante que o problema envolva a realidade do aluno e que a solução não seja óbvia. Assim, os alunos serão capazes de desenvolver um projeto investigativo em busca da solução.

Pierine, et. al. (2014) falam de três perguntas que devem ser feitas no início do projeto:

"O que nós já sabemos sobre o problema apresentado? O que nós precisamos saber? De que forma podemos encontrar as informações necessárias?"

A partir disso, iniciam-se as atividades do projeto, que envolvem alunos e professores.

Mas, como aplicar a PBL na Química?

Pierine, et. al. (2014) relataram um projeto feito em uma turma de ensino médio da rede pública do Rio de Janeiro. O projeto teve início com um questionamento de um aluno sobre a acidez da Coca-Cola. Com tantos vídeos na internet da Coca-Cola limpando superfícies com sujeiras bem difíceis de remover, a tia de um dos alunos comenta com ele sobre tudo o que ela viu, e o aluno leva esses questionamentos à aula de Química.



Aproveitando o questionamento, o professor lançou o desafio para a turma, e dividindo-a em grupos deu início ao projeto para responder as perguntas:


"1) Como o Ministério da Saúde permite a comercialização desse refrigerante? 

2) Outros refrigerantes não apresentam ácidos em sua composição?

3) Se existir ácido nos outros refrigerantes, será que a diferença de acidez entre os refrigerantes é muito grande?"


A turma se envolveu e todos começaram a investigar a Coca-Cola e mais dois refrigerantes: o Guaraná e a Fanta laranja. Nesse processo eles usaram vários conceitos da Química, aprendendo sobre as características dos ácidos, titulação e reação ácido-base. Descobriram que a Coca-Cola tem menor concentração de ácido, mas pelo ácido ser mais forte, ela apresenta o pH mais baixo. Além disso, descobriram também que a remoção das sujeiras difíceis acontecem devido à reação do ácido fosfórico, presente na Coca-Cola com os minerais insolúveis que se formam com a água dura.


Outro exemplo interessante foi relatado por Ferreira, Hartwig e Oliveira (2009), sobre uma atividade realizada com 58 alunos do 1º ano do ensino médio. O objetivo era a determinação do teor de álcool na gasolina. É importante lembrar que para esse tipo de atividade, o aluno precisa ter algum conhecimento sobre o assunto, sendo assim é importante que o professor apresente alguns conteúdos que possam ser usados para a resolução do problema. Foi o que aconteceu nessa atividade em questão. Sem direcionar à solução, o professor apresentou conteúdos pertinentes como a miscibilidade de líquidos e leitura de volumes. 

Fonte: www.brasilpostos.com.br/

Os alunos buscaram a solução do problema, realizaram o experimento e propuseram um procedimento para a obtenção da resposta e para verificar o desenvolvimento e a aprendizagem, os alunos precisaram entregar relatórios. A partir dos relatórios o professor pôde notar que, apesar da dificuldade de se expressar na forma escrita, os alunos apresentaram uma sequência lógica para a obtenção dos dados.


A metodologia investigativa também pode ser aplicada em pequenos projetos e em matérias consideradas mais complexas, como a eletroquímica. Bianchini e Zuliani realizaram uma pesquisa com alunos da 2ª série do ensino médio, do curso técnico em eletrônica, em uma escola técnica de uma universidade pública. Foi dado um mini-curso que teve como base a Eletroquímica. Após uma breve apresentação do conteúdo, foram feitas as seguintes perguntas: “porque a estátua da liberdade é verde?”; “porque a maçã cortada fica escura ao longo do tempo?”; “porque os grandes navios cargueiros possuem duas cores em seu casco?”; “porque o portão do Palácio de Buckingham continua com aparência de novo se tem mais de 300 anos?” e “como proteger uma bicicleta de ferro na praia?”. Os alunos tiveram 15 minutos para discutir as respostas e apresentá-las à turma.




Em seguida, foi feito um experimento que apresentava as reações de oxirreduções no dia-a-dia e no fim foram feitas as mesmas perguntas.

Após as atividades foi possível constatar que os alunos foram capazes de compreender a eletroquímica a partir da relação com situações reais. Eles puderam responder as perguntar iniciais e outras que foram feitas ao fim do curso sobre o conteúdo.


A PBL é interessante, mas não é de simples aplicação.

É fundamental que haja envolvimento da alta gestão da escola, visto que nas metodologias ativas o aprendizado acontece além das salas de aula. Ademais, por ser uma metodologia interdisciplinar, é necessário que outros professores participem. Deste modo, o professor sai da "zona de conforto" em que ele tem o total controle da turma e do assunto e se aventura em um projeto que demanda dele confiança no grupo (já que envolve assuntos que ele não conhece, por isso tem a participação de outros professores), disposição para mudança de planejamento ao longo do percurso ( o professor deve deixar os alunos criarem e trabalharem com mais liberdade) e estar aberto a aprender junto com os alunos durante o projeto.



Mas, apesar da dificuldade inicial, os resultados da PBL tem sido ótimos e tenho certeza que será bem mais motivador do que as aulas tradicionais, gerando melhores resultados quanto à aprendizagem da Química. Quando a Química é relacionada a situações da realidade do aluno, ela deixa de ser uma disciplina insípida e passa a ser muito mais atrativa.

Existem artigos e vídeos que podem auxiliar na aplicação prática da Aprendizagem Baseada em Problemas. Caso você tenha interesse, pode verificar nas referências desse post. 

Não deixe de comentar caso tenha alguma dúvida, crítica ou sugestão. 😄



Referências:

BIANCHINI, Thiago Bufeli; ZULIANI, Silvia R.Q.Aro. Utilizando a metodologia investigativa para diminuir as distâncias entre os alunos e a eletroquímica. Ensino e Apredizagem.

PIERINI, Max F.; ROCHA, Natasha C.; SILVA FILHO, Moacelio V.; CASTRO, Helena C.; LOPES, Renato M. Aprendizagem baseada em casos investigativos e a formação de professores: o potencial de uma aula prática de volumetria para promover o ensino interdisciplinar. Química Nova Escola. Vol. 37, nº2, p. 112-119, maio 2015.

KASSEBOEHMER, Ana Cláudia; FERREIRA, Luiz Henrique. Elaboração de Hipóteses em Atividades Investigativas em Aulas Teóricas de Química por Estudantes do Ensino Médio. Química Nova na Escola. Vol. 35, nº 3, p. 158-165, agosto 2013.

ASTUTOS UFS - PBL: Aprendizagem baseada em problemas. - www.youtube.com/watch?v=w7KVDHioID4

Tisa Educação - CURSO 18 - Introdução à aprendizagem baseada em problemas - www.youtube.com/watch?v=3oCbgEBI_4A





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